Professores brasileiros e o uso da Inteligência Artificial
Escolas08 outubro 2026-
A presença da Inteligência Artificial no cotidiano escolar já não pode ser tratada como uma possibilidade distante. Um estudo realizado pela TALIS em 2024 mostrou que 56% dos Professores brasileiros declararam ter utilizado IA em seu trabalho, percentual superior à média de 36% observada entre os países e economias participantes da OCDE.
À primeira vista, esse dado sugere que o Brasil está avançando rapidamente na incorporação da IA à Educação. Entretanto, mais importante do que perguntar quanto os Professores utilizam a IA é compreender como, para quê e em quais condições esse uso acontece.
No Brasil, entre os Professores que utilizaram IA, os usos mais frequentes estiveram relacionados à elaboração de planos ou atividades, ao ajuste da dificuldade dos materiais às necessidades dos Estudantes e à pesquisa e síntese de informações. Por outro lado, usos que envolvem análise de dados sobre a participação e o desempenho dos Estudantes, produção de devolutivas e avaliação apareceram com menor frequência.
Isso nos leva a uma reflexão importante: a utilização de uma Tecnologia não significa, necessariamente, uma transformação da prática pedagógica.
A IA pode agilizar tarefas, auxiliar na produção de materiais e ampliar as possibilidades de planejamento. Mas existe uma diferença significativa entre usar a IA para realizar uma tarefa e integrá-la criticamente ao processo educativo. No primeiro caso, a Tecnologia pode funcionar apenas como ferramenta de produtividade. No segundo, passa a fazer parte de uma prática pedagógica intencional, na qual o Professor continua sendo responsável por selecionar, contextualizar, questionar e avaliar aquilo que a Tecnologia produz.
E ainda há uma contradição especialmente significativa nos dados brasileiros. Entre os Professores que não utilizaram IA, 64% afirmaram não possuir conhecimentos e habilidades para ensinar utilizando essa Tecnologia, enquanto 60% apontaram a falta de infraestrutura nas escolas como uma dificuldade.
Ou seja, o desafio não parece estar apenas no acesso à ferramenta. Está também na formação para utilizá-la pedagogicamente e nas condições concretas oferecidas pelas instituições escolares. Nesse contexto, o dado de que os Professores brasileiros utilizaram mais IA do que a média da OCDE não deveria encerrar a discussão, mas justamente abri-la. É preciso questionar: Estamos formando Professores para utilizar IA ou apenas oferecendo ferramentas de IA aos Professores? Essa diferença é fundamental.
A Tecnologia pode contribuir para ampliar possibilidades de aprendizagem, personalizar materiais, apoiar o planejamento e favorecer novas formas de interação com o conhecimento. Entretanto, ela não substitui o conhecimento pedagógico, a experiência Docente, a relação com os Estudantes nem a capacidade humana de compreender contextos.
A própria OCDE apontou que 29% dos Professores, em média, relataram necessidade de desenvolvimento profissional relacionada ao uso da IA, sendo esse o maior percentual de necessidade entre as áreas de conteúdo investigadas pela TALIS 2024.
Dessa forma, talvez a questão central não seja simplesmente “usar ou não usar IA”. A questão educacional contemporânea passa a ser construir condições para que Professores possam utilizar a IA de maneira crítica, ética, consciente e pedagogicamente significativa.
A presença da IA na Escola não elimina o papel do Professor. Pelo contrário: torna ainda mais importante sua capacidade de fazer escolhas pedagógicas.
Porque, diante de uma Tecnologia capaz de produzir respostas rapidamente, o diferencial da Educação continua sendo a capacidade humana de formular boas perguntas, interpretar contextos, estabelecer relações, produzir sentidos e transformar informação em conhecimento.
A IA pode produzir respostas. A Educação precisa continuar formando sujeitos capazes de pensar sobre elas.



