Entre o algoritmo e o afeto: o que os dados nos dizem sobre a IA em nossas salas de aula
Escolas21 julho 2026-
Por: Um colega de profissão, no chão da escola
Se você é Professor ou Professora como eu, sabe bem como a rotina da Escola é intensa. Planejar aulas, corrigir avaliações, atender famílias e, acima de tudo, acolher as demandas emocionais e intelectuais dos nossos Estudantes em uma era de hiperconexão. Nesse cenário, o tema da Inteligência Artificial (IA) deixou de ser um enredo de ficção científica para se tornar assunto constante no café dos Professores e nos corredores.
Mas o que está realmente acontecendo nas nossas redes de Ensino?
Recentemente, o Observatório Fundação Itaú (em parceria com o Equidade.Info) divulgou a pesquisa “Percepções sobre Inteligência Artificial na Educação”. O levantamento ouviu cerca de 1.947 Estudantes, 240 Docentes e 156 Gestores de 142 Escolas. Os dados não trazem apenas porcentagens: eles desenham um espelho do tempo presente e lançam desafios urgentes para o nosso fazer pedagógico.
1. Nossos Alunos já estão lá (e não é de hoje)
A pesquisa revelou que 8 em cada 10 Alunos (84%) já utilizam ferramentas de IA como ChatGPT, Gemini ou geradores de imagem. O dado é marcante: 90% recorrem à IA para pesquisar ou tirar dúvidas, e 80% usam para realizar tarefas escolares. A frequência é mais do que o dobro no Ensino Médio (29%) em comparação ao Ensino Fundamental (13%).
Isso nos mostra uma verdade incontornável: tentar proibir ou fingir que a IA não existe na rotina de estudos é travar uma batalha perdida. A pergunta que precisamos nos fazer na sala dos Professores não é mais “como impedi-los de usar?”, mas sim “como ensiná-los a usar com pensamento crítico?”.
2. A conscientização (e a maturidade) dos Estudantes
Muitas vezes achamos que os jovens usam a Tecnologia de forma ingênua. No entanto, a pesquisa trouxe um ponto animador: 75% dos Alunos estão cientes do potencial da IA para gerar e espalhar notícias falsas (fake news), e 54% reconhecem que a ferramenta pode ser perigosa se usada sem regras.
Nossos Alunos percebem os riscos. Eles sentem que o excesso de facilidade pode anestesiar a criatividade ou produzir desinformação. E é justamente nessa brecha que a nossa mediação pedagógica se torna insubstituível. O robô entrega a resposta rápida; cabe a nós, Professores, ensinar o valor da dúvida, da checagem de fontes e do raciocínio autoral.
3. Nós, Professores, também abrimos a porta — mas precisamos de amparo
E do nosso lado da mesa? Apenas 21% dos Docentes declararam nunca ter utilizado IA. A grande maioria já usa: 76% utilizam para criar materiais pedagógicos, 75% para aprofundar conhecimentos específicos e 84% enxergam a IA como uma aliada no planejamento e no ganho de produtividade.
Sabemos como a nossa carga de trabalho é pesada. Se um algoritmo pode otimizar o tempo de criação de um plano de aula ou nos ajudar a diversificar a linguagem de uma atividade, por que não?
No entanto, há uma angústia latente. A pesquisa destaca que 84% dos Professores concordam que o currículo precisa ser atualizado para tratar do assunto e 62% demandam que os cursos de formação Docente (inicial e continuada) incluam a IA. Não queremos ser apenas usuários intuitivos; queremos formação sólida para guiar nossas turmas de forma éticamente orientada.
O que nos espera daqui para frente?
Ao analisar os dados da Fundação Itaú, fica evidente que o papel do Professor não diminuiu, pelo contrário, ele se tornou ainda mais vital.
Se a máquina é capaz de sintetizar conteúdos em segundos, o valor da Educação migra definitivamente do “acesso à informação” para o desenvolvimento da capacidade crítica, analítica e humana (como pontuou Eduardo Saron, presidente da Fundação Itaú). A IA não tem empatia, não olha nos olhos do Aluno que está passando por um momento difícil, não escuta as entrelinhas de um debate em sala e não celebra o desabrochar do pensamento de uma criança.
Colega Professor, a Inteligência Artificial é uma ferramenta poderosa e veio para ficar. Mas quem dá sentido à jornada da Aprendizagem continuamos sendo nós. Que possamos usar esses dados não com receio, mas como um convite para ocuparmos nosso lugar de direito: o de mediadores conscientes, éticos e humanos no processo de formação das futuras gerações.
Referência do Estudo: “Pesquisa Percepções sobre Inteligência Artificial na Educação”, desenvolvida pelo Observatório Fundação Itaú e Equidade.Info (dados coletados entre nov/dez de 2024).



