Uma reflexão sobre o uso da Inteligência Artificial no ensino remoto: possibilidades da Tecnologia e a responsabilidade de Educar.
Escolas24 agosto 2026-
Falar sobre Inteligência Artificial na Educação já não significa falar sobre algo distante ou que ainda irá acontecer. Ela está presente nas plataformas, nos ambientes virtuais de aprendizagem (AVA) e, principalmente, no cotidiano de Professores e Estudantes. O ensino remoto contribuiu para acelerar esse processo e mostrou, ao mesmo tempo, o quanto as Tecnologias podem aproximar o conhecimento e o quanto também podem revelar desigualdades que já existiam.
O artigo de Carvalho (2025) apresenta uma discussão importante sobre esse cenário ao analisar as possibilidades e os riscos da utilização da Inteligência Artificial no ensino remoto. A autora destaca recursos como a personalização da aprendizagem, o feedback imediato e a automatização de algumas tarefas Docentes. Também chama atenção para questões que, do ponto de vista Educacional, não podem ser deixadas em segundo plano: a proteção dos dados, os vieses dos sistemas, a desigualdade de acesso e a possibilidade de enfraquecimento das relações humanas no processo Educativo.
Como Educadora, considero que a discussão começa justamente quando deixamos de olhar para a Inteligência Artificial apenas como uma ferramenta que pode facilitar uma tarefa, organizar informações ou oferecer respostas rapidamente. Na Educação envolve muito mais do que isso. Um Professor não conhece um Estudante apenas pelo resultado de uma atividade. Muitas vezes, percebe uma dificuldade pelo silêncio, pela falta de participação, pela mudança de comportamento ou por uma pergunta aparentemente simples. Há situações em que o Estudante não consegue explicar o que está acontecendo, mas o Professor percebe que alguma coisa mudou e esse olhar não é facilmente transformado em dados.
Por isso, a ideia de personalização da aprendizagem merece ser observada com cuidado. A Inteligência Artificial pode identificar padrões de desempenho, indicar conteúdos e propor atividades de acordo com as respostas apresentadas pelo estudante. Isso pode ajudar bastante, principalmente em ambientes remotos, nos quais acompanhar cada Estudante pode ser mais difícil. O próprio artigo aponta essa possibilidade como uma das contribuições relevantes da IA para o ensino. Mas personalizar não é apenas adaptar uma atividade. Personalizar também significa conhecer o Estudante, compreender sua realidade e perceber que duas pessoas podem apresentar o mesmo resultado por motivos completamente diferentes. O Estudante pode ter dificuldade porque não compreendeu determinado conteúdo; outro pode apresentar o mesmo resultado porque não teve acesso adequado à atividade, porque estava cansado, porque não possui um ambiente tranquilo para Estudar ou porque enfrenta uma dificuldade que não aparece na plataforma. É nesse ponto que o trabalho do professor continua sendo indispensável.
A Tecnologia pode apresentar informações sobre o Estudante, mas é o Professor quem precisa interpretar essas informações e decidir o que fazer com elas. Uma plataforma pode indicar que determinado aluno apresenta baixo desempenho. Ela não conhece, necessariamente, a história que está por trás daquele resultado.
A automatização também precisa ser vista dessa maneira. Se uma ferramenta consegue corrigir determinadas atividades, organizar dados ou produzir um primeiro retorno para o Estudante, ela pode economizar tempo e permitir que o Professor se dedique a outras ações pedagógicas. Isso pode ser positivo. O problema aparece quando a busca pela eficiência começa a determinar o que entendemos por uma boa educação.
Educação não pode ser medida apenas pela quantidade de tarefas realizadas, pela velocidade das respostas ou pelo desempenho apresentado em uma plataforma.
Existe uma relação humana que sustenta o processo educativo. Existe escuta, diálogo, conflito, dúvida, tentativa, erro e recomeço. Existe também o direito de o estudante pensar de outra maneira, questionar uma resposta e construir seu próprio caminho. Quando tudo passa a ser orientado por sistemas que identificam padrões e oferecem respostas prontas, corremos o risco de transformar a aprendizagem em um processo excessivamente previsível.
Outro ponto que merece atenção é a quantidade de informações que entregamos às plataformas Educacionais. Para oferecer determinadas experiências personalizadas, os sistemas precisam coletar dados. Isso levanta uma questão que muitas vezes fica escondida diante do entusiasmo com as novas Tecnologias: o que estamos permitindo que seja conhecido sobre nossos Estudantes? Essa pergunta é ainda mais delicada quando pensamos em crianças e adolescentes. Dados sobre desempenho, comportamento, hábitos e interações não são apenas números. Eles dizem respeito às pessoas. Por isso, o uso da Inteligência Artificial na educação precisa vir acompanhado de responsabilidade e clareza sobre a forma como essas informações são coletadas e utilizadas. Carvalho (2025) também destaca a privacidade e a segurança dos dados como desafios importantes desse processo.
Também não podemos falar de inovação sem falar de acesso. Durante o período de ensino remoto, ficou evidente que ter uma tecnologia disponível não significa que todos tenham as mesmas condições para utilizá-la. Há Estudantes com computador, internet estável e um espaço adequado para estudar. Há outros que precisam compartilhar um único aparelho com familiares ou dependem de uma conexão limitada. A chegada da Inteligência Artificial não elimina essa desigualdade e se não houver políticas de acesso e inclusão digital, pode até ampliá-la.
Esse aspecto me parece especialmente importante porque, muitas vezes, falamos sobre o futuro da Educação como se todos os Estudantes estivessem partindo do mesmo lugar. Não estão.
A Escola precisa olhar para a Tecnologia considerando as condições reais de seus Estudantes. Não adianta oferecer uma plataforma sofisticada se parte da comunidade Escolar não consegue acessá-la adequadamente. Não adianta falar em personalização se as condições básicas de participação ainda não estão garantidas.
Também existe uma responsabilidade na formação dos Professores. Não basta ensinar a utilizar uma ferramenta de Inteligência Artificial. É preciso compreender o que ela faz, quais dados utiliza, quais são suas limitações e como suas respostas devem ser analisadas. Um Professor que utiliza IA sem compreender seus limites pode acabar confiando excessivamente em uma Tecnologia que também pode errar.
Por isso, considero que a formação Docente precisa caminhar junto com a Inovação Tecnológica. O Professor não precisa competir com a Inteligência Artificial. Precisa aprender a trabalhar com ela sem perder aquilo que dá sentido à sua profissão. Talvez essa seja uma das principais questões que o avanço da IA coloca para a Educação: o que queremos preservar quando tantas tarefas podem ser automatizadas?
A resposta, para mim, passa pela relação Humana. A Tecnologia pode ajudar a encontrar caminhos, organizar informações, oferecer possibilidades e até ampliar o acesso ao conhecimento. Mas Educar envolve acompanhar pessoas, envolve reconhecer diferenças, incentivar perguntas, acolher dificuldades e criar situações para que o estudante desenvolva autonomia e pensamento crítico.
Por isso, não vejo a Inteligência Artificial como uma ameaça que deve ser afastada da Escola, mas também não a vejo como uma solução capaz de resolver os problemas Educacionais, ela é mais uma possibilidade dentro de um cenário muito maior. O desafio está em fazer escolhas.
Escolher quando utilizar a Tecnologia, quando não utilizá-la, quais ferramentas fazem sentido para determinada realidade e, principalmente, quais decisões precisam continuar sendo Humanas.
A discussão apresentada por Carvalho (2025) contribui para essa reflexão ao mostrar que a presença da IA no ensino remoto envolve ganhos importantes, mas também exige atenção aos impactos sociais e éticos.
Como Educadora, acredito que o avanço Tecnológico precisa vir acompanhado de uma pergunta que nem sempre fazemos: essa Tecnologia está ajudando o Estudante a aprender ou apenas tornando o processo mais rápido?
A resposta pode fazer toda a diferença. Uma Educação Inovadora não é aquela que utiliza a maior quantidade de Tecnologias, mas sim aquela que sabe utilizar os recursos disponíveis para ampliar as possibilidades de Aprendizagem sem perder de vista as pessoas que estão no centro desse processo.
A Inteligência Artificial pode fazer parte dessa construção. Mas o sentido da Educação continua sendo Humano.
CARVALHO, Fabiana de Paula. Inteligência Artificial no Ensino Remoto: Um Olhar Crítico Sobre Vantagens, Riscos e Desafios. Revista Tópicos, Rio de Janeiro, v. 3, n. 22, p. 1-15, 2025.



